A divina treta

Uma resenha ilustrada do conflito de Joan Crawford e Bette Davis no seriado "Feud".

A gente aprende cada vez mais cedo - seja pela ficção, seja na vida -, que o conflito é uma força motriz. Uma engrenagem. Não existe história boa se o personagem não possui algum antagonismo. Nem que seja consigo. É algo que nos cerca em diversas esferas e dimensões.

Uma espécie de “diversão” da era contemporânea, mas que na realidade talvez nunca tenha saído de moda, é observar as tretas do Olimpo - aka, do mundo das celebridades. Quem brigou com quem, a exposição, a pós-verdade são elementos do marketing em 2017. Perceba que sempre que alguém está para lançar um single, um filme ou um novo canal do Youtube, algum caldo entorna. Desconfio que é tudo farsesco  e obra de RPs - o que não torna as situações menos divertidas ou exasperantes… Dependendo do contexto. Não é todo mundo que consegue brigar com a Taylor Swift, mas um bom jeito de começar é provocando alguma Kardashian. 

Sempre de olho e adiante está o uber produtor de seriados Ryan Murphy ("American Horror Story", "American Crime Story" e "Glee"), que tem um tino comercial fora do comum. 

Esse ano ele criou “Feud”, uma série em antologia que conta a cada temporada um conflito de “proporções bíblicas” entre personalidades ilustres. Para escrutínio e prazer culpado de quem tem curiosidade. E a primeira coletânea trouxe as divas Bette Davis e Joan Crawford - lendárias atrizes da era de ouro hollywoodiana, encarnadas respectivamente por Susan Sarandon e Joan Crawford

É engraçado comparar os sentimentos em torno de “Feud: Bette and Joan” antes de sua exibição e agora. A respeito de Joan Crawford, também. 

Mommie Dearest” foi a primeira biografia esposé, realizada por sua filha adotiva, Christina Crawford, que virou cult através do película "Mamãezinha Querida", com Faye Dunaway. Narrava os abusos sofridos por Christina e seu irmão nas mãos da atriz. O livro imprimiu em mim - e aparentemente em toda cultura popular - uma visão extrema, quase que definitiva da grande diva de "Mildred Pierce".

O que o showrunner Ryan Murphy fez, se chama justiça. Ao dar outro possível olhar sobre uma lenda, mais sensível e sem o peso do pré-julgamento, ele e Jessica Lange trazem dignidade a uma estrela que desbravou seu caminho para fama a foice. E totalmente sozinha.

Do outro lado do ringue, Bette Davis e Susan Sarandon numa atuação que, meu deus, chega a ser difícil achar superlativos. Fui #TeamBette até descobrir que o tempo todo estávamos falando de uma mulher. E de todas as mulheres. 

A princípio o seriado prometia entregar toda a suculência biliar de uma das maiores confusões de bastidores que Hollywood já promoveu. E foi muito mais, porque era um cavalo de tróia. Criticou a sangria desatada das quais sobrevivem TMZ e muitos blogs por aí.  

Acompanhamos as atrizes por algumas décadas, mais especificamente quando suas carreiras interseccionam nas filmagens do filme de horror "O que Terá Acontecido a Baby Jane?", um clássico incisivamente metalinguístico: mostra duas atrizes, e irmãs, cujo sucesso deu lugar ao ageísmo e esquecimento. 

Conflitos são sobre dor”, e no fim tem melancolia de sobra nessa coisa chamada vida. Assim como também há beleza e uma de suas maiores formas é o talento. 

E que celebração de talento foi esta série! 

Rodrigo Kurtz

É designer gráfico, publicitário e ilustrador freelancer. Adora conversar sobre cinema e seriados. Mora em Florianópolis com suas duas gatas, Bitinira e Pretinira.

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